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Inteligência Artificial: estamos ampliando nossa consciência ou acelerando nossa própria involução?

O amadurecimento da inteligência humana diante da aceleração tecnológica

Imagine que você entregue à inteligência artificial os registros dos últimos dez anos da sua vida: e-mails, mensagens, projetos, decisões, oportunidades, realizações e situações que não se concretizaram.

Em poucos minutos, ela analisa milhares de informações, identifica padrões recorrentes em seu comportamento e estabelece relações entre acontecimentos que talvez você levasse décadas para reconhecer.

Ela demonstra, por exemplo, que determinadas maneiras de se posicionar contribuíram repetidamente para que alguns projetos não fossem concluídos. Apresenta alternativas, identifica oportunidades e sugere novos caminhos.

De repente, você começa a perceber algo sobre si que antes não conseguia reconhecer.

Uma nova compreensão se apresenta. Seu campo de percepção se amplia e você passa a enxergar relações que estavam além das suas referências habituais.

A partir dessa descoberta, começa a fazer escolhas diferentes.

Mas o fato de conseguir enxergar algo que antes não percebia significa que você desenvolveu as capacidades necessárias para compreender, sustentar e orientar essa nova percepção?

E se a inteligência artificial estiver acelerando suas realizações em uma direção que não corresponde à sua natureza, aos seus princípios e àquilo que verdadeiramente deseja manifestar em sua vida?

Uma pessoa pode avançar rapidamente sem ter desenvolvido as condições internas necessárias para reconhecer que está seguindo uma direção que não lhe corresponde.

Entretanto, existe uma questão ainda mais profunda: o que acontece com o amadurecimento da própria inteligência quando uma tecnologia passa a realizar por nós os processos que participam de seu desenvolvimento?

Quando a humanidade começou a fazer perguntas diferentes

Ao longo da história, a humanidade transformou suas maneiras de viver, conhecer e compreender a realidade.

As necessidades de sobrevivência, alimentação e proteção acompanharam o desenvolvimento de novas formas de organização da vida. A agricultura, a formação de comunidades permanentes e a estruturação das sociedades trouxeram outros desafios e possibilidades.

As perguntas humanas também foram se transformando.

Além das questões relacionadas à sobrevivência e à organização da vida, diferentes culturas aprofundaram suas investigações sobre a existência.

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? O que é a verdade? Qual é o sentido da vida?

O filósofo Karl Jaspers identificou um período particularmente significativo dessas transformações, denominado Tempo Axial, situado aproximadamente entre 800 e 200 a.C.

Em diferentes civilizações, importantes tradições filosóficas, espirituais e éticas desenvolveram novas formas de reflexão sobre a existência e a condição humana.

Não foi o momento em que a humanidade começou a formular perguntas existenciais, presentes em culturas muito anteriores, mas um período em que essas questões adquiriram novas formas de elaboração e sistematização.

A humanidade não estava apenas acumulando conhecimentos. Estava desenvolvendo novas maneiras de interrogar a realidade.

Essa perspectiva nos conduz a uma questão essencial:

Quando começamos a formular perguntas que nossas referências anteriores já não conseguem responder, o que acontece com nossa maneira de pensar?

Jean Piaget e a construção da inteligência

Jean Piaget dedicou grande parte de sua trajetória científica à investigação de como o conhecimento se desenvolve.

Em sua epistemologia genética, demonstrou que conhecer não consiste simplesmente em receber informações. O sujeito participa ativamente da construção do conhecimento por meio de suas ações e interações com a realidade.

Imagine uma criança que acredita que um recipiente alto e estreito contém mais água do que outro, baixo e largo, mesmo quando ambos possuem a mesma quantidade.

Ao observar a transferência da água entre os recipientes, ela pode encontrar uma contradição entre aquilo que acredita e o que a experiência apresenta.

Suas referências ainda não são suficientes para compreender adequadamente aquela situação.

Piaget investigou esses processos por meio de três conceitos fundamentais: assimilação, acomodação e equilibração.

A assimilação acontece quando interpretamos uma experiência a partir dos esquemas cognitivos que já possuímos.

A acomodação envolve a modificação desses esquemas diante das exigências da realidade.

A equilibração corresponde ao processo de autorregulação pelo qual buscamos superar desequilíbrios e construir formas mais elaboradas de organização cognitiva.

Esses movimentos interagem continuamente e participam do desenvolvimento das estruturas do pensamento.

A criança não aprende apenas que a quantidade de água permanece a mesma. Ela pode desenvolver uma estrutura cognitiva que lhe permite compreender relações de conservação e aplicá-las a outras situações.

Essa distinção é fundamental.

Uma coisa é receber uma informação. Outra é construir as capacidades cognitivas que tornam possível compreendê-la, questioná-la e reconstruí-la autonomamente.

Ao longo do desenvolvimento, a pessoa pode ampliar sua capacidade de reconhecer contradições, investigar possibilidades e refletir sobre os próprios processos de pensamento.

Esse exercício reflexivo, relacionado à metacognição, permite examinar nossas interpretações, reconhecer limites e reorganizar referências.

Embora metacognição e equilibração sejam conceitos distintos, ambos oferecem contribuições importantes para compreender o desenvolvimento da autonomia intelectual.

Mas o que acontece quando uma inteligência artificial passa a realizar grande parte desse trabalho por nós?

Quando a inteligência artificial antecipa a construção do conhecimento

Imagine uma pessoa diante de uma situação complexa.

Para compreendê-la autonomamente, precisaria investigar, formular hipóteses, confrontar informações, reconhecer contradições e revisar suas referências.

Esse percurso poderia provocar desequilíbrios cognitivos e exigir novas formas de organização do pensamento.

Entretanto, antes que ela percorra esse processo, a inteligência artificial apresenta uma análise estruturada.

Identifica o problema, estabelece relações, demonstra inconsistências e oferece uma síntese.

A pessoa reconhece a coerência da explicação e passa a utilizá-la.

Agora dispõe de uma compreensão que talvez não conseguisse elaborar sozinha naquele momento.

Mas será que desenvolveu as estruturas cognitivas necessárias para construí-la?

É aqui que a epistemologia genética de Piaget oferece uma contribuição fundamental à nossa reflexão.

O desenvolvimento da inteligência envolve a atividade construtiva do sujeito. Não basta que uma relação seja apresentada externamente. É necessário considerar como ela é assimilada, quais desequilíbrios provoca, que acomodações exige e se participa efetivamente de uma reorganização cognitiva.

A inteligência artificial pode favorecer esse processo ao apresentar desafios, provocar questionamentos e ampliar possibilidades de investigação.

Entretanto, quando substitui sistematicamente a atividade intelectual do sujeito, surge uma questão que merece atenção:

Podemos ampliar extraordinariamente aquilo que conseguimos realizar sem desenvolver, na mesma proporção, as capacidades cognitivas que sustentariam essas realizações de maneira autônoma?

O salto tecnológico e o amadurecimento humano

Voltemos ao exemplo dos dez anos de registros pessoais.

A inteligência artificial identifica um padrão comportamental que você nunca havia percebido.

A descoberta provoca um insight.

Você reconhece relações entre decisões, comportamentos e resultados. A partir desse momento, começa a fazer escolhas diferentes.

Mas reconhecer um padrão não significa, necessariamente, ter reconstruído as referências que sustentam aquele comportamento.

Uma nova compreensão pode exigir investigação, experimentação, confronto com a realidade e amadurecimento do discernimento.

Quando participamos ativamente desse processo, não estamos apenas modificando aquilo que sabemos. Podemos transformar nossa própria maneira de perceber, interpretar e escolher.

A inteligência artificial pode contribuir para esse amadurecimento, mas também pode permitir que avancemos sem realizar suficientemente o trabalho de reflexão necessário para sustentar nossas novas escolhas.

Nesse caso, a velocidade do salto tecnológico não corresponde, necessariamente, à maturação da inteligência.

A pessoa pode alcançar resultados expressivos, realizar projetos e tomar decisões com maior rapidez.

Entretanto, pode continuar dependente da IA para compreender os fundamentos dessas realizações.

Ela ampliou sua capacidade de agir. Mas ampliou sua autonomia para discernir?

Estamos desenvolvendo inteligência ou dependência de inteligência?

O conhecimento humano sempre se desenvolveu em interação com outras pessoas, linguagens, instrumentos e formas culturais de mediação.

Livros, professores e tecnologias ampliaram nossas possibilidades de aprendizagem ao longo da história.

Portanto, não se trata de defender que precisamos construir todo conhecimento individualmente, sem auxílio.

A questão está na diferença entre uma mediação que favorece o desenvolvimento das capacidades cognitivas e outra que substitui continuamente atividades que o sujeito poderia desenvolver.

Uma pessoa pode produzir um trabalho intelectualmente sofisticado com auxílio da IA e, ainda assim, não conseguir explicar autonomamente as relações que fundamentam suas conclusões.

Outra pode utilizar a mesma tecnologia para formular hipóteses, reconhecer contradições, aprofundar investigações e desenvolver novas capacidades de compreensão.

A ferramenta pode ser a mesma. O processo de construção do conhecimento, entretanto, pode ser profundamente diferente.

Se deixamos de investigar porque recebemos respostas, de questionar porque recebemos interpretações e de construir sínteses porque elas já nos são apresentadas, quais serão as consequências para nossa autonomia intelectual?

E se esse movimento se tornar recorrente ao longo de gerações?

Uma nova Era Axial?

A hipótese de uma nova Era Axial, relacionada às transformações provocadas pela inteligência artificial, nos convida a refletir sobre possíveis mudanças profundas nas maneiras de conhecer e compreender a existência.

Entretanto, precisamos distinguir a ampliação do acesso ao conhecimento do amadurecimento das capacidades necessárias para construí-lo.

É nesse ponto que encontramos uma aproximação significativa entre Karl Jaspers e Jean Piaget.

Jaspers nos ajuda a compreender a importância histórica das transformações nas perguntas humanas.

Piaget nos oferece fundamentos para investigar os processos pelos quais o sujeito constrói e reorganiza suas estruturas cognitivas.

A inteligência artificial introduz uma condição nova nessa relação: podemos acessar perguntas, interpretações e sínteses cada vez mais complexas sem necessariamente ter percorrido os processos cognitivos que permitiriam elaborá-las autonomamente.

Essa possibilidade nos coloca diante de uma questão que ultrapassa o desenvolvimento individual e alcança a própria humanidade.

A humanidade poderá acessar horizontes intelectuais cada vez mais amplos.

Mas será que desenvolverá, na mesma proporção, as capacidades necessárias para interrogá-los?

A possibilidade de uma involução das capacidades cognitivas

Se a inteligência artificial passa a realizar por nós os processos de investigação, questionamento, confronto de referências e construção de sínteses que participam do amadurecimento da inteligência humana, estaremos ampliando nossa consciência ou criando condições para uma involução de nossas próprias capacidades cognitivas?

Essa pergunta não significa afirmar que a inteligência artificial produzirá inevitavelmente uma involução humana.

O desenvolvimento cognitivo é complexo, e a mediação tecnológica pode favorecer ou limitar diferentes formas de aprendizagem.

Também não dispomos de evidências suficientes para concluir que a IA provocará um enfraquecimento generalizado da inteligência humana.

Entretanto, existe uma hipótese que merece ser investigada.

Se determinadas capacidades se desenvolvem por meio da atividade construtiva do sujeito, o que acontece quando essa atividade é sistematicamente substituída por processos automatizados?

Poderemos continuar alcançando resultados cada vez mais sofisticados.

Poderemos realizar projetos em velocidades extraordinárias.

Poderemos acessar conhecimentos que gerações anteriores sequer imaginavam.

Mas isso não assegura que estejamos desenvolvendo proporcionalmente nossa capacidade de formular perguntas, reconhecer contradições, reorganizar referências e construir sínteses próprias.

O risco não está simplesmente em deixar de saber determinadas coisas.

Está na possibilidade de deixarmos de exercitar capacidades que participam da construção da nossa autonomia intelectual.

E, se isso ocorrer de maneira persistente, poderemos enfrentar o enfraquecimento de determinadas capacidades cognitivas, mesmo em uma sociedade tecnologicamente mais poderosa.

O desafio de continuar amadurecendo

A inteligência artificial pode ser uma extraordinária mediadora do conhecimento.

Pode ampliar nossas perguntas, desafiar nossas referências e favorecer aprendizagens que antes seriam muito mais difíceis.

Mas sua contribuição para o desenvolvimento humano não deve ser avaliada apenas pela velocidade das respostas ou pela complexidade dos resultados que conseguimos produzir com ela.

Precisamos considerar também o que acontece com nossas próprias capacidades ao longo desse processo.

Estamos desenvolvendo novas estruturas de compreensão?

Estamos ampliando nossa autonomia para investigar?

Estamos amadurecendo nossa capacidade de reconhecer contradições, questionar pressupostos e reconstruir conhecimentos?

Ou estamos nos tornando progressivamente dependentes de sistemas que realizam essas operações por nós?

A epistemologia genética de Piaget nos oferece uma referência essencial: o conhecimento não é simplesmente algo que recebemos. Ele se constrói na relação ativa entre o sujeito e a realidade.

E talvez essa seja uma das contribuições mais importantes para refletirmos sobre a inteligência artificial.

Não basta perguntar o quanto a tecnologia é capaz de pensar conosco. Precisamos investigar o que acontece com nossa capacidade de pensar enquanto a utilizamos.

Talvez o maior desafio não seja acompanhar a velocidade com que a inteligência artificial evolui, mas assegurar que o ser humano continue desenvolvendo as capacidades pelas quais reconhece, compreende, questiona e transforma sua própria existência.

Afinal, de que nos servirá ampliar indefinidamente os horizontes do conhecimento se deixarmos de amadurecer a inteligência e a consciência necessárias para interrogá-los?

 

Sahwenya Passuello
Ensaio filosófico-científico
Desenvolvimento Humano e Consciência — Alma da Terra